quarta-feira, 13 de março de 2013

CANÇÃO DE OUTONO ...


 Perdoa-me, folha seca,
não posso cuidar de ti.
... Vim para amar neste mundo,
e até do amor me perdi.

De que serviu tecer flores
pelas areias do chão,
se havia gente dormindo
sobre o próprio coração?

E não pude levantá-la!
Choro pelo que não fiz.
E pela minha fraqueza
é que sou triste e infeliz.

Perdoa-me, folha seca!
Meus olhos sem força estão
velando e rogando àqueles
que não se levantarão...

Tu és a folha de outono
voante pelo jardim.
Deixo-te a minha saudade
- a melhor parte de mim.
Certa de que tudo é vão.
Que tudo é menos que o vento,
menos que as folhas do chão...
 

 

Cecília Meireles.

terça-feira, 12 de março de 2013

A FLOR DO SONHO ...



A flor do sonho, alvíssima, divina
Miraculosamente abriu em mim,
Como se uma magnólia de cetim
... Fosse florir num muro todo em ruína.

Pende em meu seio a haste branda e fina.
E não posso entender como é que, enfim,
Essa tão rara flor abriu assim!…
Milagre… fantasia… ou talvez, sina….

Ó flor, que em mim nasceste sem abrolhos,
Que tem que sejam tristes os meus olhos
Se eles são tristes pelo amor de ti?!…

Desde que em mim nasceste em noite calma,
Voou ao longe a asa da minh´alma
E nunca, nunca mais eu me entendi…

Florbela Espanca.


 

domingo, 10 de março de 2013

RECORDO-TE ...

 


Hoje sinto-me incompleto... pois simplesmente, recordei ...
Lembrei me de ti, do teu sorriso, da tua alegria, em mim
Recordo o que contigo aprendi e como vazio fiquei
A dor e saudade o tormento sem fim ...
...
Foste alma que me criou
E num momento partiste sem dizer adeus
Assim deixaste-me incompleto, o mundo sem ti ficou
As lágrimas caíram, e perdi os abraços teus...

Momentos que passei, o que aprendi,
Os dias melhores que vivi
Que recordo em mágoa lembrando-me de ti
Sabendo que estejas onde estiveres, olhas por mim

Mas não te disse metade do que queria
Não tive essa hipótese foste vida interrompida
E eu continuo a amar-te como sempre amei ...
Recordo-te,…
sorrindo,....chorando, deixaste a vida mais vazia

Devia ter-te dito que te Amo incondicionalmente
Que perdoei tudo que um dia me magoou
Que sinto a falta da tua amizade de te ter presente
Que o meu mundo simplesmente... mudou

Mas tudo o que me ensinas-te mora no meu ser
És anjo que ao céu, por ordem do destino... subiu
Estás, estarás e ficarás no meu ser, no meu coração até eu morrer
Parte de mim que um dia simplesmente...partiu

 Autor Desconhecido.

 

 

AMIZADE ...




A amizade
é o mais belo afluente do amor,
ela ajuda a resolver,
com paciência,
as complicadas equações
da convivência humana.

A amizade
é tão forte quanto o amor,
ela educa o amor,
sinalizando o caminho da coerência,
apontando as veredas da justiça,
controlando os excessos da paixão.
A amizade
é um forte elo que une pessoas
na corrente do querer.
Amizade
é cola divina,
cola demais,
pode doer.

A amizade
tem muito mais juízo que o amor,
quando ele se esgota
e cisma de ir embora,
ela se propõe a ficar,
vigiando o sentimento que sobrou.

Ivone Boechat.

sábado, 9 de março de 2013

PEÇO SILÊNCIO ...

 

 

Agora me deixem tranquilo.
Agora se acostumem sem mim.
 Eu vou fechar os olhos
 E só quero cinco coisas,
Cinco raízes preferidas.

 Uma é o amor sem fim.
 A segunda é ver o outono.
Não posso ser sem que as folhas
Voem e voltem à terra.
 A terceira é o grave inverno,
A chuva que amei, a carícia
Do fogo no frio silvestre.
 Em quarto lugar o verão
Redondo como una melancia.
 A quinta coisa são teus olhos,
Matilde minha, bem amada,
Não quero dormir sem teus olhos,
Não quero ser sem que me olhes:
Eu troco a primavera
Pra que tu fiques me olhando.
 

Amigos, isso é tudo o que quero.
É quase nada e quase tudo.
 Agora, se querem que se vão.
 Vivi tanto que um dia
Terão de esquecer-me com força,
Apagando-me do quadro negro:
Meu coração foi interminável.
 Mas porque peço silêncio
Não creiam que vou morrer:
Pois é exatamente o contrário:
Acontece que vou viver.

 Acontece que sou e que sigo.
 Não será, pois, senão que dentro
De mim crescerão cereais,
Primeiro os grãos que rompem
A terra para ver a luz,
Porém a mãe terra é escura:
E dentro de mim sou escuro:
Sou como um poço em cujas águas
A noite deixa suas estrelas
E segue só pelo campo.
 Trata-se de que tanto vivi
Que quero viver outro tanto.
 Nunca me senti tão sonoro,
Nunca tive tantos beijos.
 Agora, como sempre, é cedo.
Voa a luz com suas abelhas.
 Deixem-me só com o dia.
Peço permissão para nascer. 

 

Pablo Neruda.

 

segunda-feira, 4 de março de 2013

SILÊNCIO ...

 

"No fadário que é meu, neste penar,

Noite alta, noite escura, noite morta,
 
Sou o vento que geme e quer entrar,
Sou o vento que vai bater-te à porta...

Vivo longe de ti, mas que me importa?
Se eu já não vivo em mim! Ando a vaguear
Em roda à tua casa, a procurar
Beber-te a voz, apaixonada, absorta!

Estou junto de ti, e não me vês...
Quantas vezes no livro que tu lês
Meu olhar se pousou e se perdeu!"



  Florbela Espanca.




sexta-feira, 1 de março de 2013

FANATISMO ...



Minh'alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer razão do meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!

... Não vejo nada assim enlouquecida...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!

"Tudo no mundo é frágil, tudo passa..."
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!

E, olhos postos em ti, digo de rastros:
"Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: Princípio e Fim!"

Florbela Espanca.