quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

SUPREMO ENLEIO ...


 
Quanta mulher no teu passado, quanta!
Tanta sombra em redor! Mas que me importa?
Se delas veio o sonho que conforta,
A sua vinda foi três vezes santa!

Erva do chão que a mão de Deus levanta,
Folhas murchas de rojo à tua porta...
... Quando eu for uma pobre coisa morta,
Quanta mulher ainda! Quanta! Quanta!

Mas eu sou a manhã: apago estrelas!
Hás-de ver-me, beijar-me em todas elas,
Mesmo na boca da que for mais linda!

E quando a derradeira, enfim, vier,
Nesse corpo vibrante de mulher
Será o meu que hás-de encontrar ainda...

Florbela Espanca.
 

 


quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

QUERO-TE BEM ...



Deixei-te na esquina da saudade,
Minha mão sorriu em leve Adeus,
Ingrata é a hora do partir!
Mas meu Amor por ti... ficou,
Mais forte que o breve Adeus!

Deixaste-me num leito de silêncio,
Cultivando nosso jardim de memórias,
De uma Primavera...
... Onde rápidamente invernou,
E alva era a neve ,
Neste crepitar de lenha seca,
Que a cinza da lareira apagou!

Ainda escuto as longas horas,
Onde bebi em cálice tuas palavras,
Saboreando o mel dos sorrisos e afagos.
E no fel das tuas dores... sofri!

Quis caminhar a teu lado,
Mas tua alma solitária...
Desencantou-se da minha,
Entre a lágrima e o sorriso!

Quero-te bem...
Só sei amar assim!

Posso negar-(me) a dor,
Posso aceitar o desamor,
Posso te Querer... (e)ternamente,
Posso fechar-te na saudade,
Mas meu sorriso... meu poema,
Sempre brilhará para Ti*

C.C.
 

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

PARA TI ...

 


 Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
... toquei no nada
e para ti foi tudo

Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que falhei
o sabor do sempre

Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só olhar
amando de uma só vida.

Mia Couto.

 

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

AMO -TE ...



 

Há margens de rio,
Sem pontes a amasiar,
Há rios que se estugam
Deitados em olhares
Há esperas cautelosas
... E horas a desfiar
Há rosários de vida
Destinos por encontrar
Há dias caudalosos
De ânsias e mistérios,
Há esperas sem horas,
Que choram no coração,
Há vidas que gotejam
Momentos de solidão

Quando afinal…

Tudo seria tão simples
Tão frutuosamente singelo,
Humedeceres minha boca,
No poema que emudeces:

Amo-Te!

C.C.