domingo, 27 de janeiro de 2013

O TEU RISO...



 Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas não
me tires o teu riso.

... Não me tires a rosa,
a lança que desfolhas,
a água que de súbito
brota da tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.

A minha luta é dura e regresso
com os olhos cansados
às vezes por ver
que a terra não muda,
mas ao entrar teu riso
sobe ao céu a procurar-me
e abre-me todas
as portas da vida.

Meu amor, nos momentos
mais escuros solta
o teu riso e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso
será para as minhas mãos
como uma espada fresca.

À beira do mar, no outono,
teu riso deve erguer
sua cascata de espuma,
e na primavera , amor,
quero teu riso como
a flor que esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.

Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
tortas da ilha,
ri-te deste grosseiro
rapaz que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando meus passos vão,
quando voltam meus passos,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria.

Pablo Neruda.


segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

CONTO DE FADAS...



Eu trago-te nas mãos o esquecimento

Das horas más que tens vivido, Amor!

E para as tuas chagas o ungüento

... Como que sarei a minha própria dor.


Trago no nome as letras duma flor...

Foi dos meus olhos garços que um pintor

Tirou a luz para pintar o vento...


Dou-te o que tenho: o astro que dormita,

O manto dos crepúsculos da tarde,

O sol que é de oiro, a onda que palpita.

 

Dou-te, comigo, o mundo que Deus fez!

Eu sou Aquela de quem tens saudade,

A princesa do conto: "Era uma vez..."

 

Florbela Espanca.

domingo, 13 de janeiro de 2013

NINGUÉM ALÉM DE TI ...

 

Ninguém além de ti!

Apenas tu

Diferente de mim,

Que me fazes completo

Em tudo o que não sou...

Por que este ser que vai em

Mim?

- Porque em mim nada sobra

Que não sejas tu!

Porque sem ti falta-me a parte vital

Para ser o que sou!

Porque somos apenas um

Que divididos indiferentes somos

À vida que nos passa indiferente!...

 
 

Fernando Figueirinhas.

CORAÇÃO ...


Onde está meu coração
Que outrora batia descompassadamente?
Talvez ancorado num cais perdido
Talvez esquecido num areal longínquo
Ou quem sabe, nunca tenha assim batido...

Onde poderá estar?
Nas cordas dum violino
Chorando acordes melancólicos
Num beco sem saída, num temporal
Naufragado num oceano
Envolvido num sudário de estrelas do mar
Ou na etérea neblina da floresta
Caminhando como um insano perdido, quem sabe...

Recordo vagamente, como pulsava em mim
Procuro incessantemente sem o vislumbrar
Retenho em mim memórias vagas
Lembranças diáfanas.

Meu coração, agora sem rosto
Deixou de sentir, pereceu
Em seu lugar está uma ferida, mal cerzida
Já esqueci a razão pela qual sorria
Neste tempo, sem tempo
Onde, fugazmente, a vida aconteceu.

Não quero calar a voz que dói em mim
Numa preamar, quem sabe, logo de madrugada
Num eco do mar, eu o posso encontrar
Ou uma gaivota, protegendo-o em suas asas
Mo possa devolver, sem coros ou lamentos
Quero-o de novo, pulsante ardente
Quero-o, quero-te coração, em mim novamente!


  CC.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

APRESENTO-ME COMO COMECEI...



 

 

Diante do re-começo,
Os medos multiplicam-se,
E eu só quero dizer adeus,

Ajoelho-me diante de mim,
... Confesso-me em bocados pecados,
Afago-me na despedida,
Um rosto marcado pelo tempo,
Onde centelhas de amor brilharam,
E sombras de dor habitaram,

Percorro meu corpo sem o ver,
Esta flacidez de casca,
Como uma velha árvore seca,
Que nunca perdeu um ramo
De sua identidade…

Não serei a sombra desta árvore?
Ou serei a sombra que lhe falta?

Neste viver num passo de cada vez,
Retocar de verde as folhas de esperança,
Acreditar que é sempre Primavera,
Sorrindo e consertando os galhos frágeis,
Com a seiva adocicada de amor,
Coração que não conhece maldade,

Apresento-me como comecei…

Quem me espera?
Devo partir ou ficar?
O que devo deixar para trás?
E o que devo levar?
Alguém chorará?
Quem se lembrará?
Para onde devo ir?
Senão conheço nenhum lugar?

Abro minha alma às perguntas,
Meus olhos se fecham incógnitos,
Apresento-me assim…
Numa vida sem respostas,
E o começo me impulsiona,
Na busca do verbo final!
 


 C.C.