sábado, 25 de agosto de 2012

O MEU OLHAR É NÍTIDO COMO UM GIRASSOL ...



 O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...

Creio no Mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe porque ama, nem o que é amar...

Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não pensar...

 


Alberto Caeiro.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

OS TEUS OLHOS ...






Olhos do meu Amor! Infantes loiros
Que trazem os meus presos, endoidados!
 Neles deixei, um dia, os meus tesoiros:

...

Meus anéis, minhas rendas, meus brocados.

Neles ficaram meus palácios moiros,
Meus carros de combate, destroçados,
Os meus diamantes, todos os meus oiros
Que trouxe d'Além-Mundos ignorados!

Olhos do meu Amor! Fontes... cisternas...
Enigmáticas campas medievais...
Jardins de Espanha... catedrais eternas...

Berço vindo do Céu à minha porta...
Ó meu leito de núpcias irreais!...
Meu sumptuoso túmulo de morta!...

Florbela Espanca.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

MINHA CULPA ...

A Artur Ledesma...

Sei lá! Sei lá! Eu sei lá bem
Quem sou?! Um fogo-fátuo, uma miragem...
Sou um reflexo... um canto de paisagem
Ou apenas cenário! Um vaivém...

Como a sorte: hoje aqui, depois além!
Sei lá quem Sou?! Sei lá! Sou a roupagem
Dum doido que partiu numa romagem
E nunca mais voltou! Eu sei lá quem!...

Sou um verme que um dia quis ser astro...
Uma estátua truncada de alabastro...
Uma chaga sangrenta do Senhor...

Sei lá quem sou?! Sei lá! Cumprindo os fados,
Num mundo de vaidades e pecados,
Sou mais um mau, sou mais um pecador...

Florbela Espanca, in "Charneca em Flor"



 

 

terça-feira, 7 de agosto de 2012

JANELAS ...



Abro as janelas
para te ver chegar
como quem acende uma vela
para iluminar a noite
ou fecha lentamente os olhos
para morder um desejo

Ligo o piano metálico
que reproduz a tua voz
e deixo-me enfeitiçar
pela caligrafia do teu sorriso
a desfazer na penumbra
o longe que nos cerca

Abro as janelas
e as asas sonâmbulas
até cruzar as fronteiras
e chegar na luz do luar
ou na nuvem de incenso
que liberta o éter das paixões

Nos oceanos da tua ausência
sopro as sete ondas
do ciclo maior da rebentação
e fico, deste lado da margem,
a escutar o marulhar do teu corpo
ancorado nos limos do meu peito



Runa.