sábado, 30 de junho de 2012

EU ...



 Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada ... a dolorida ...

Sombra de névoa ténue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
... Alma de luto sempre incompreendida! ...

Sou aquela que passa e ninguém vê ...
Sou a que chamam triste sem o ser ...
Sou a que chora sem saber porquê ...

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver
E que nunca na vida me encontrou!

Florbela Espanca.



segunda-feira, 25 de junho de 2012

A TUA PRESENÇA ...




 Como é bom saber-te aí,
Que aqui também estás,
Sempre por perto, presente.

 Solidão ausente pela tua presença
Sempre presente
Quando de ti me ausento.

Pensamentos, sentimentos, palavras
E perfumes que de ti trago,
Quando de ti me ausento.

Mas que logo se desfazem
Quando te pressinto
No que de mim tenho em ti,
Que é mais teu do que meu.

Fernando Figueirinhas.


AMO-TE POR TODAS AS RAZÕES E MAIS UMA ...


 

"Amo-te por  todas as razões e mais uma.

Esta é a resposta que costumo dar-te quando me perguntas

por que razão te amo.

Porque nunca existe apenas uma razão para amar alguém.

Porque não pode haver nem há só uma razão para te amar.

Amo-te porque me fascinas e porque me libertas

e porque fazes sentir-me bem.

E porque me surpreendes e porque me sufocas

e porque enches a minha alma de mar e o meu espírito

de sol e o meu corpo de fadiga.

E porque me confundes e porque me enfureces e porque

me iluminas e porque me deslumbras.

Amo-te porque quero amar-te e porque tenho necessidade

de te amar e porque amar-te é uma aventura. 

Amo-te porque sim mas também porque não

e, quem sabe, porque talvez.

 E por todas as razões que sei e pelas que não sei

e por aquelas que nunca virei a conhecer.

  E porque te conheço e porque me conheço.

 E porque te adivinho.

Estas são todas as razões.

Mas há mais uma: porque não pode existir outra como tu."

 


Joaquim Pessoa. 

 

 


 

domingo, 17 de junho de 2012

TERNURA ...


 Desvio dos teus ombros o lençol,
que é feito de ternura amarrotada,
... da frescura que vem depois do sol,
quando depois do sol não vem mais nada...

Olho a roupa no chão: que tempestade!
Há restos de ternura pelo meio,
como vultos perdidos na cidade
onde uma tempestade sobreveio...

Começas a vestir-te, lentamente,
e é ternura também que vou vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente


que da nossa ternura anda sorrindo...
Mas ninguém sonha a pressa com que nós
a despimos assim que estamos sós!

David Mourão Ferreira.




sábado, 9 de junho de 2012

MISTÉRIO D`AMOR ...


 Um mistério que eu trago dentro em mim
... Ajuda-me, minha alma a descobrir...
É um mistério de sonho e de luar
Que ora me faz chorar, ora sorrir!

Vivemos tanto tempo tão amigos!
E sem que o teu olhar puro toldasse
A pureza do meu. E sem que um beijo
As nossas bocas rubras desfolhasse!

Mais um dia, uma tarde...houve um fulgor
Um olhar que brilhou...e mansamente...
Ai dize ó meu encanto, meu amor:

Por que foi que somente nessa tarde
Nos olhamos assim tão docemente
Num grande olhar d'amor e de saudade?!

 

Florbela Espanca.

 

O VERBO AMAR ...




Te amei: era de longe que te olhava
e de longe me olhavas vagamente...
Ah, quanta coisa nesse tempo a gente sente,
que a alma da gente faz escrava.

Te amava: como inquieto adolescente,
tremendo ao te enlaçar, e te enlaçava
adivinhando esse mistério ardente
do mundo, em cada beijo que te dava.

Te amo: e ao te amar assim vou conjugando
os tempos todos desse amor, enquanto
segue a vida, vivendo, e eu, vou te amando...

Te amar: é mais que em verbo é a minha lei,
e é por ti que o repito no meu canto:
te amei, te amava, te amo e te amarei!




Florbela Espanca.


quarta-feira, 6 de junho de 2012

TU ...


 Tu eras também uma pequena folha
que tremia no meu peito.
O vento da vida pôs-te ali.
A princípio não te vi: não soube
... que ias comigo,
até que as tuas raízes
atravessaram o meu peito,
se uniram aos fios do meu sangue,
falaram pela minha boca,
floresceram comigo.

  Pablo Neruda.



sábado, 2 de junho de 2012

DOCE CERTEZA ...


Por essa vida fora hás de adorar

Lindas mulheres, talvez; em ânsia louca,

Em infinito anseio hás de beijar

Estrelas d’oiro fulgindo em muita boca!


 

Hás de guardar em cofre perfumado

Cabelos d’oiro e risos de mulher,

Muito beijo d’amor apaixonado;

E não te lembrarás de mim sequer!..


 

Hás de tecer uns sonhos delicados…

Hão de por muitos olhos magoados,

Os teus olhos de luz andar imersos !


 

Mas nunca encontrarás p’ la vida fora,

Amor assim como este amor que chora

Neste beijo d’amor que são meus versos!


 

Florbela Espanca.






VIVER ...


 

 

Viver não custa nada
É só deixar correr
e perfazer
os dias da jornada
É ir no vento
... ou contra o vento
mas ir

Viver
não custa nada
O que custa é sentir
este amor este lume
e não se prescindir
deste ciúme

Viver
não custa nada
O que custa é saber
que amanhã ou depois te vou perder
e o que ainda é mais triste
é ver que o Amor das minhas alegrias
afinal não existe
porque não cabe nos dias

Viver
não custa nada
que o que torna a vida impertinente
eivada de acrimónia
é o estado de alerta permanente
é esta imensa insónia
é esta sede avara
que me corrói e não pára
que me tortura e não sara
é tu seres… é tu seres o sol poente
que não volta a nascer

Viver
não custa nada
Atravessar a vida não enfada
que o Mundo é grande e vário
e viver é mesmo extraordinário
quando p´ra além dos sóis
há o sol do teu sorriso
Mas depois
é preciso
vencer
todos os medos
de ver que o hoje foge
e que à socapa
tudo se nos escapa
entre os dedos

Viver
não custa nada
O que custa é entender
como é maior que o peito o coração
e como mesmo assim
eu sinto dentro em mim
o peito vão
tão cheio de vazio e desconsolo
que mais parece
a noz que se oferece
sem miolo

Viver
não custa nada

Muito menos
morrer

Anthero Monteiro.